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Os
posts em letra branca são de ficção, os em letra
preta, opinião. O resto é postado em cinza. |
6/02/04 16:30 (postado originalmente em 15/05/03 23:39) Bang, bang A cup of strawberry tea and some slices of good bread, that's all I needed to go to bed, happy as an innocent lamb. But no. Not for me. Not this me. The whole night went by, watching old cartoons on tv. Pathetic, I know. But knowing doesn't always mean something. Knowing isn't all. Well, at least not for me. So, day after day, after day, my life went by, nursed by lovely grow-up-toys. By cellular phones, PDA's, cars, furniture, money and credit cards. One night I heard the noise, during a tap dancing act by Gene Kelly. Not a tap, off course, but a clang. A metal sound, coming from downstairs. First thought: none stupid, asshole of a burglar gonna take my ten thousand dollars stereo from my Pajero. Downstairs I go, no fear, all courage. Like those old stars from the movies, all dead from cancer, aids, heart diseases. My eyes crossed the whole garage, the brand-new sport utility, the convertible, the wife's minivan. And two legs. A pair of intruders in my fucking perfect world. That's all my thirty years mind and body needed. All my jerk-offs business books and shitty MBA's prepared me for. Stop right there, idiot, I got a gun, I yelled to the guy. But I didn't had a gun. He did. And used it. Two shots, waking up the whole block. One on the chest, one on the stomach. I never thought that blood, real blood, not the one on those finger cutting bleedings, would be so thick, so red, so beautiful. The guy run over me, while my last few drops of what I called life flew off from my body to the floor. I used my last strength to say two words for the kid. One for each shot: Thank you. [Ouvindo: Let's Stay Together - Al Green - Álbum: Pulp Fiction OST] 6/02/04 2:25 O diabo bate à porta O veleiro levemente adernado, a resistência da água no timão, o ruido do casco de 47 pés cortando as ondas com o vento batendo de través, fazendo os mais de 100 metros quadrados de vela abalroarem. O anúncio de um Bénéteau 473 faz boca de Paulo salivar de vontade. Não que esteja descontente com o Day Sailer II de 16 pés que comprou ano passado. É um bom barco, mas ele não pode deixar de imaginar o que poderia fazer com um monstro desses. Duas cabines de casal, sendo uma suíte, cozinha, sala, área para navegação. Nem tem coragem de se perguntar quanto custa. Provavelmente, teria de vender a alma para comprar um desses. Vender a alma, até que não seria má idéia, Paulo raciocina. Mas não tem certeza se sua alma valeria tanto. Fez tanta bobagem na vida que é surpresa ainda estar vivo. Provou de tudo, bebeu de tudo, cheirou, picou-se, trepou sem camisinha. Mas ainda está por aí, incomodando a esposa, enchendo o saco dos colegas de trabalho. E pensando em vender a alma. Nunca a idéia havia passado pela cabeça de Paulo, talvez porque nada tenha valido a pena. Ferrari, Harley Davidson, Learjet, tudo isso sempre atraiu o perturbado advogado de meia-idade, mas nada tanto quanto barcos. Veleiros, principalmente. Lanchas não eram muito seu forte, embora fossem as preferidas da esposa, também advogada. Taí uma coisa pela qual vale a pena vender a alma. Eu defintivamente venderia a alma por um Bénéteau 473, pensa Paulo, ao mesmo tempo em que o telefone do seu escritório em casa toca. A mulher, perguntando se ele tinha compromisso para a noite. Se não tivesse, ela sugeria um pouco de sexo e talvez um jantar seguido de um DVD qualquer. Há alguns anos a vida do casal passara a ser assim: sexo, só quando acertado previamente. Nada impetuoso, nada de se agarrar e pronto. Tinha que ser agendado para não atrapalhar a vida profissional. Mas tudo bem, ela compreendia. Afinal, um relacionamento feliz não era algo que valesse a pena vender a alma, mas aquele veleiro, ah, aquilo sim valia uma alma. Mal Paulo pensou nisso, a campainha tocou. Pelo olho mágico, o rosto familiar do sr. 1002, vizinho do apartamento de baixo. Não o via há muito tempo, mas também não ligava muito para vizinhos. Paulo os conhecia apenas pelo número do apartamento. Só Bill, o síndico, merecia a deferência de ter o nome decorado. A qualquer hora poderia precisar dele e nesses momentos é bom tratar as pessoas pelo nome. Boa tarde, tudo bem? Tranqüilo, posso lhe ajudar? Eu sou seu vizinho de baixo e gostaria de falar um pouco com o senhor. Posso entrar? Claro, fique à vontade. Paulo mostra a ampla sala de estar e indica uma poltrona. Sentam-se e avaliam um ao outro. O sr. 1002 é baixo e meio careca, o oposto exato de Paulo. Fala com uma voz grave, de baixo ou barítono, num tom agradável e que desperta confiança. Parece ser gente boa, analisa o advogado. Meu nome é Anésio e vim tratar de negócios, Paulo. Negócios? O senhor está precisando de aconselhamento jurídico? Chame-me de Anésio, mas, não, não preciso. Quem precisa de algo é você. A deixa fez um relê na cabeça de Paulo estalar: esse cara veio vender algo, convencer de alguma coisa. Já pronto para dispensar o tal Anésio, Paulo se levanta, mas senta ao ouvir a frase seguinte: Vim para lhe oferecer um Bénéteau 473, novo em folha. Como esse cara soube que eu quero um Bénéteau 473? Será coincidência? Não, não é coincidência, explica Anésio, para espanto de Paulo, que imaginou seus pensamentos sendo invadidos. Como ess cara sabe o que eu pensei, meu Deus? Sei de muita coisa. Deixe lhe explicar. Sou o representante, aqui na região de uma organização bastante conhecida e importante mundialmente. Nós , de certa forma, monitoramos pensamentos, desejos, vontades. Algumas expressões despertam um alarme que ativa o nosso sistema. Agora há pouco, segundo meu relatório, o senhor expressou a vontade de vender sua alma. Como assim? Você ouviu o que eu pensava enquanto olhava pro anúncio daquele veleiro? Não exatamente. Veja bem: os pensamentos são monitorados o tempo todo, como se fossem troca de correspondência entre as pessoas. Quando o correio detecta um pacote suspeito, passa por aparelhos de raio-x, toma providências. No nosso caso, quando alguém mostra estar disposto vender a alma, entramos em ação. Que diabos é isso, porra? Você tá brincando comigo, é de alguma igreja maluca, veio aqui me falar de Deus, me convencer que a alma isso, que a alma aquilo... Tá monitorando a minha internet, isso sim, sabe que eu acessei o site da Bénéteau, que tava olhando pro anúncio do 473. Imaginou que eu venderia a alma por um barco daqueles, só isso, tenta se convencer Paulo, alterado por não ter como raciocinar claramente. Toda essa história de gente lendo pensamentos, de almas e poderes sobrenaturais havia mexido com ele. Não sou de igreja nenhuma, Paulo. Aliás, não vim em busca de salvar sua alma. Nos interessa muito mais comprá-la. Ou, melhor, trocá-la pelo seu objeto de desejo, o veleiro de 47 pés que você tanto quer. A voz de Anésio é quase hipnótica, suave, melodiosa, difícil não acreditar que essa loucura toda é verdade. Você disse que trabalha para uma empresa. O que uma empresa quer com a minha alma? Não, eu disse que trabalhava para uma corporação, uma corporação chamada Hell International. Nós, da Hell, funcionamos com o sistema de postos avançados. Não temos uma sede social formal. O escritório central em Los Angeles é apenas para fins de fiscais. Trabalhamos com uma grande rede mundial de colaboradores, com capacidade de decisão descentralizada, o que nos dá muita eficiência em relação à concorrência. Concorrência? Como assim? Observe: nosso negócio é a aquisição de almas, no que concorremos diretamente com as mais diversas religiões. Em todo o mundo, o cristianismo é nosso maior adversário. No Brasil, o catolicismo é a vertente que mais nos incomoda. Tem o maior share do mercado, embora venha perdendo espaço nos últimos anos para outras formas de cristianismo, com métodos mais modernos de administração. Analisando bem, o catolicismo é o que dispõe de maior número de franquias no território nacional. É difícil o lugar, por mais ermo que seja, que não disponha de uma igreja católica, de um representante que comercialize os produtos deles. A comunhão e a confissão são dois hits praticamente imbatíveis, especialmente em municípios com menos de 50 mil habitantes. Por isso nossa corporação adotou um sistema diferente: trabalhamos com marketing de rede. Em cada local há um representante operando com estrutura própria, capaz de atender o cliente. É o seu caso. Bastou pensar em vender a alma para o diabo que nós aparecemos na sua porta. Claro que a resposta foi mais rápida pelo fato de eu estar livre e ser seu vizinho. Mas se o senhor não fosse atendido por mim, um representante nosso lhe procuraria ainda hoje. A ânsia de vender a alma é altamente perecível, é preciso fechar o negócio enquanto o desejo ainda está bem vivo. Eu apenas pensei em vender a alma, isso não significa que eu vou entregá-la a você. Acho melhor eu falar com a minha mulher primeiro. Até porque a gente acertou de não comprar nada sem consultar o outro antes. A última vez que fiz isso, criei uma crise conjugal que você nem imagina. Creio que Letícia não se importará. Ela já é nossa cliente há algum tempo. Como é que é? Letícia vendeu a alma pra vocês? Sim, há aproximadamente... - nesse momento Anésio consulta rapidamente um palmtop - Sim, há doze anos. Doze anos? Qual foi o desejo dela? Por que ela fez isso, meu Deus? Por favor, senhor Paulo, não há necessidade de o senhor ficar esfregando a concorrência na minha cara. Desculpe, é força de expressão, na verdade eu nem acredito muito nEle. Nós sabemos disso, está no seu arquivo, por isso estamos apostando tanto no senhor como cliente. Peraí, se existe diabo, se vocês da Hell International estão querendo minha alma, então existe Deus. O senhor é bastante perspicaz, uma excelente aquisição para o nosso portfolio. Sim, existe Deus. Mas ele não parece ligar para o senhor, não acha? Ele não está aqui, negociando sua alma, não está lhe oferecendo um barco que custa uns tantos milhões de reais. Já a Hell International lhe atende da melhor maneira possível. E, ao contrário da concorrência, que toma todas as suas decisões baseadas em manuais antiqüíssimos, eu tenho poder de barganhar com o senhor. Posso, inclusive, melhorar a oferta. Eu posso pedir mais do que o Bénéteau pela minha alma? Bem, senhor Paulo, há um limite, mas estamos dispostos a lhe oferecer um excelente negócio pela sua alma. Em termos de recursos, estamos bem servidos. Praticamente todas as grandes empresas são nossas afiliadas ou parceiras. A maioria esmagadora dos CEOs das maiores corporações mundiais são nossos clientes, bem como os líderes de praticamente todas as nações e a maior parte dos ocupantes de cargos públicos. Juízes, então nem se fala. Aliás, a sua profissão, de advogado, é um dos nossos principais públicos-alvo. Tá, tá, mas me diga qual o desejo de Letícia? Por que diabos ela vendeu a alma? Deixe ver... Ah, sim, ela entregou-nos a alma para casar-se com o senhor. Ela lhe conheceu, se apaixonou e entrou em contato conosco para fechar o negócio. Intervimos e agora a alma dela nos pertence. Subitamente, Paulo compreendeu o porque da mudança de Letícia. A mudança do tempo em que eram namorados, do seu ímpeto, da sua força de vontade, para o zumbi que se tornou depois do casamento. Faltava alma para Letícia. Qual seria então, a explicação para ele? Por que era tão apático, tão insosso no relacionamento dos dois? Talvez a alma dele não valesse mesmo grande coisa. Então, Anésio, me diga uma coisa: por que a Hell está interessada na minha alma? Sua alma é também sua força de trabalho. A partir do momento em que fecharmos negócio, você passa a integrar nossa rede, receberá relatórios e, caso alguma pessoa de seu conhecimento seja detectada como possível cliente no sistema, você será acionado para fechar o negócio. Lhe daremos um treinamento, claro. Interessante, mas eu tenho uma contra-proposta. Talvez o Bénéteau não seja tão importante, mas eu gostei de sua organização. E, desde que o pagamento seja condizente, eu não me importo em trabalhar para o demônio. Abrindo o jogo, lhe proponho a troca da minha força de trabalho, meu esforço em angariar novas almas em troca da alma de Letícia. Nada de barco, só a alma de minha esposa de volta. Não é uma proposta de todo má, Paulo, mas um tanto inusitada. O mais comum é que alguém ofereça a alma em troca de outra alma, normalmente de alguém que se ama. Nossa experiência mostra que isso é muito comum entre pais e filhos. Os pais vendem a alma para que os filhos possam continuar com a alma pura. Coitados, mal sabem que alguém que vendeu a alma uma vez é facilmente convencido a negociar novamente. Mas, o senhor é quem sabe. Se lhe interessa a devolução da alma de sua esposa, aceito a proposta. Ótimo. Onde assino? Não é necessário. Sua palavra é válida para a Hell International. Então está feito. Os dois levantam com sorrisos nos rostos, se cumprimentam e se despedem à porta. Aguardo um contato seu a respeito do treinamento, então. Claro, lhe ligarei assim que entrar em contato com os supervisores regionais e quando estiver com a papelada toda em dia. Até mais. Paulo voltou para a frente do computador, ainda exibindo o anúncio do Bénéteau 473 e deu mais um sorriso. Fechou o navegador e foi para a cozinha. Faria um talharim à bolonhesa para Letícia. Comeriam com um bom vinho chileno e sairiam para tomar sorvete e passear à beira-mar. Era isso, comemorariam o retorno da alma de Letícia. Enquanto Paulo cortava o filé em cubinhos, ela chegou, comentando do alvoroço que tomara conta do prédio. Amor, parece que o Anésio, do apartamento aqui de baixo se matou. Ele passou mais de cinco anos internado em um hospício e fugiu de lá hoje de manhã, conseguiu entrar no prédio, tentou entrar no apartamento deles, mas a Karina não estava em casa. Não se sabe onde ele esteve a tarde inteira, mas parece que ele se atirou de uma janela do corredor. Um horror, a polícia está lá embaixo e o corpo do pobre homem, coberto por um plástico, estirado na calçada. Lembra do Anésio? Um Paulo lívido respondeu que lembrava, sim, que não sabia que ele havia sido internado, que lamentava pela Karina e pelos filhos. Que às vezes a vida é cruel com uns, que a pressão é enorme. E olhou de maneira diferente para Letícia, que olhava de volta, imaginando o que ele fazia na cozinha. Estou cozinhando pra nós. Talharim. Faz tanto tempo que você não cozinha. É, diz ele, meio que se aproximando de Letícia. Ela, mais perto, encosta a coxa nele, passando a mão pelo corpo, do mesmo jeito que fazia quando namoravam. A maneira dela dizer que estava com vontade. E ele respondeu à altura, agarrando as coxas e erguendo a saia de Letícia. Se beijaram e um pensamento passou pela cabeça de Paulo: a mudança de comportamento só pode ser coincidência. Mas, por outro lado, talvez não seja. Talvez, Anésio não tivesse tanta autonomia assim e a gerência não tenha aprovado o negócio fechado com Paulo. Talvez ele não tenha morrido. Para a Hell International, ele foi apenas demitido. [Ouvindo: Stray Cat Blues - Rolling Stones - Álbum: Beggar's Banquet] 5/02/04 11:44 Cadmia Comecei ontem, pra valer, as sequências de exercícios na academia. É do lado de casa, na Iberê Rosa, e aposto que agüento mais tempo do que o normal. Nunca passei mais de dois meses fazendo algum tipo de atividade física programada. Natação, mesmo, não dei nem a largada direito. Tudo muito chato, estático. Pelo menos na musculação eu fico assistindo o Jornal Nacional, o que pra mim é trabalho - tenho de analisar diariamente o conteúdo do JN. Assim, o tempo não é totalmente perdido. De acordo com o professor, até que não estou em tão má forma. Em termos de massa muscular, tá bem razoável, o problema é o abdômen. A pança, em termos leigos. Mas, estranhamente, eu fiz 240 abdominais ontem e não chegou a fazer cosquinha. Os exercícios para o peitoral e braços, em compensação, suei pra completar as séries. Mas não estou dolorido. Menos pior, porque o carro tá com a Lu hoje e eu tenho que conseguir, ao menos, andar de moto. [Ouvindo: Immigrant Song - Led Zeppelin - Álbum: Early Days & Latter Days] |
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