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25/4/05 22:40

Digital natives

A expressão "digital natives" foi usada pelo dono da News Corporation, Rupert Murdoch, na Economist da semana passada. Segundo ele, é essa turma, já nascida sob a égide da internet, que vai mandar no futuro. Embora mais velho do que essa geração - hoje estou nos meus 33 anos - me identifico com a expressão, mesmo que Murdoch me classifique como "digital immigrant".

Nunca gostei de jornal em papel e foi uma maravilha quando a internet surgiu com seus jornais e revistas online. Nada de sujar as mãos em fotos mal-impressas, nada de folhear por um bom tempo até achar o que quero. Clique aqui, clique ali e pronto. Sei que tem muita gente que discorda, mas Murdoch e eu concordamos numa coisa: os jornais do jeito que os conhecemos, já eram. (Acho que é só nisso que concordamos, porque o cara é dono da Fox, republicano até debaixo d'água.)

Dados da World Association of Newspapers mostram que de 1995 a 2003, a circulação dos jornais caiu 5% nos EUA, 3% na Europa e 2% no Japão. Até o mestre Philip Meyer - para quem não sabe, o cara que consolidou a idéia do jornalismo de precisão - já admite que os jornais estão em extinção. Meyer prevê, em seu livro "The Vanishing Newspaper: Saving Journalism in the Information Age", que até 2040 não haverá mais jornal em papel.

Mas, não chorem, colegas de profissão. A informação, essa sim o objeto do jornalismo, continuará muito bem valorizada. Hoje, por exemplo, não estou mais nas redações, não trabalho com jornalismo propriamente dito (não escrevo matérias, não edito imagens, não faço boletins de rádio ou press-releases), mas meu treinamento me deixou bastante competitivo no tratamento e organização de informações. E ganho meu troco com isso.

Claro que a coleta das informações e sua difusão continuará, mas certamente de forma diferente. Se me perguntarem, eu diria que a qualidade de texto será menos valorizada, mas haverá maior preocupação com a precisão dos dados, o que me parece bastante salutar. Mas, esperemos: o futuro só começa amanhã. Até lá.

[Ouvindo: AC/DC - Meltdown - Stiff Upper Lip]

23/4/05 18:28

Update pessoal

Boa parte dos leitores já sabe, mas agora trabalho em horário de gente: das oito ao meio-dia e das duas às seis. Há três semanas que aceitei a proposta de um de meus clientes para coordenar um núcleo de inteligência competitiva. Acabou-se a mamata de velejar em dia de semana, mas também foi-se o tempo de passar sábados e domingos debruçado sobre o computador. Corta-se num lado, ganha-se no outro.

Até eu me acostumar com o novo esquema, o tempo será escasso. Por isso o abandono do blog. Temeis nada, jovens leitores! Assim que eu me organizar, até o mês que vem, espero, estarei postando normalmente. Ou seja, muito de vez em quando.

Até que eu consiga organizar de novo meu tempo, vou depender da noite, dos horários de almoço e das manhãs de sábado para fazer essas coisas que todo mundo faz: comprar o que falta em casa, levar moto para revisão, pagar contas, procurar um carro para trocar... Aliás, a Lu e eu estamos curtindo um Clio vermelhinho desde ontem.

[Ouvindo: Foo Fighters - Generator - There Is Nothing Left To Lose]

3/4/05 1:58

Comidinhas

- Senhores passageiros, bem vindos ao vôo 253 da British Airways com destino ao aeroporto de Heathrow, em Londres. Assim que a aeronave estiver...

Hamilton se desligou das mensagens praticamente automatizadas que iniciavam cada vôo e se dedicou a analisar os passageiros ao seu redor. Duas fileiras à frente, uma senhora parecia interessante. Carregava um embrulho pardo que certamente teria deixado os fiscais da alfândega desconfiados. Abraçava-se ao cubo de 50 centímetros como um filho. Na fila à direita, na poltrona da janela, um japonês-chinês-coreano de terno sorria olhando para fora. Estranho, sorrir olhando para o Marco Zero, no sul de Manhattan. Desde o atentado, Hamilton embarcava nos EUA com terrorismo na cabeça. Contaminado pelo medo reinante na América do Norte. Assim que notava isso, procurava desviar o pesamento para algo mais agradável. Mulheres, por exemplo. Logo depois do corredor, uma fileira para trás, havia uma morena de olhos claros brigando com os fones de ouvido. Corpo bonito, rosto agradável.

Era hora para o esporte, como Hamilton dizia. Casado há 12 anos, o vendedor de equipamentos esportivos tinha por hobby seduzir mulheres. Em sua cabeça, isso não significava que traía a esposa. Ele apenas seduzia, marcava encontros, conseguia números de telefone. Não passava disso. Umas mais afoitas até conseguiam roubar um beijo de Hamilton, mas era raro. Seu hobby era brincar de flertar. E na poltrona 12-F havia um alvo em potencial.

Depois das aeromoças servirem as bebidas, o plano que engendrara nos últimos cinco minutos começou a ser executado. Levantou-se para ir ao banheiro e fez contato com os olhos da garota. Era assim que tirava a temperatura, se o alvo era ou não factível. Era. Na volta do toalete, sentou-se ao lado da morena.

- Olá, meu nome é Hamilton. Odeio viajar sozinho sem ter com quem conversar um pouco. Posso me sentar ao seu lado?

- Claro, fique à vontade. Jamie, muito prazer - disse ela, estendendo a mão. Ele alongou-se no cumprimento, o suficiente para notar se havia alguma química. Logo conversavam e riam de leve, fazendo comentários sobre os passageiros, sobre o atendimento, sobre o desconforto das viagens transoceânicas. Daí, partiram para assuntos mais pessoais, livros, música, relacionamentos. Jamie era atriz e morava no East Side com um arquiteto que ganhava a vida como fotógrafo. Era a brecha.

- Que tipo de fotos ele faz? Arquitetura, moda, nus?

- De tudo um pouco, mas trabalha principalmente com modelos vivos.

- Você certamente já posou para ele.

- Claro - e a resposta veio seguida de um gole do suco de tomate que ela bebericava sem pressa.

- Nua? - Não houve resposta, apenas mais um gole do suco. Hamilton julgou ter visto um sorriso, mas pode ter sido impressão.

Mudaram brevemente de assunto, mas depois de um pequeno silêncio, Jamie olhou para Hamilton e disse apenas "sim".

- Sim o quê?

- Sim, ele me fotografou nua.

- Onde posso ver essas fotos? Adoraria vê-las.

- Ha, ha, engraçadinho - e o jeito de inclinar a cabeça e sorrir junto com o comentário serviram como um carimbo de fatura paga para Hamilton.

- Não posso dizer que não seja engraçadinho, mas há mais de mim por trás disso. Uma viagem entre Nova Iorque e Londres é pouco para se conhecer uma pessoa. Normalmente, eu apenas procuro alguém com quem conversar, uma amizade que dure sete horas de vôo. Já fiz escolhas terríveis e acabei sentado ao lado de pessoas odiosas, mas desta vez acertei. Até demais. Sete horas é pouco. Gostaria de me embriagar de Jamie, mas não tenho tempo.

A reação da garota, lisonjeada, presa fácil, foi a esperada: nome e telefone dos amigos com quem ela iria ficar em Kensington, perto de Holland Park. Hamilton sorriu por dentro, satisfeito com a conquista. Agora era manter o clima e, quando chegar em Londres, queimar o papel com as informações.

Mas, nesse exato instante, a aeromoça passou perguntando o que os passageiros gostariam de jantar. As opções eram peixe, frango, filé, um jantar kosher e um vegetariano. Hamilton escolheu o filé e lamentou, em tom de brincadeira, que não houvesse uma opção apenas com carne. Disse que se fosse por ele, seriam servidas apenas grandes porções de filé em todos os vôos.

Jamie escolheu o prato vegetariano. Hamilton notou que poderia ter ficado quieto. Era tarde demais.

- Ao comer carne, você corrobora com o assassinato de centenas de milhares de animais.

- Esses animais nem existiriam se não fosse pelos frigoríficos. São criados para o abate - ele retrucou. Mais uma chance de fechar a boca.

- Da forma mais lamentável possível. Cheios de hormônios, vacinas, biotoxinas, prontos para o abate num ritmo antinatural. Sabia que carne faz mal, que nosso organismo não foi criado para consumir carne?

- Até pode ser que não tenha, mas também não fomos criados para andar em pé. E andamos. Tudo é questão de adaptação, e hoje estou plenamente adaptado a uma suculenta vitela. Como carne porque posso, porque é saboroso. Se quisesse viver mais, não faria nada arriscado. Não estaria aqui do seu lado, nesse avião, que pode cair a qualquer momento.

- Talvez não devesse estar mesmo - ela fechou a cara e olhou a noite, as nuvens sobre o oceano e completou, fulminando e encerrando de vez a quase conquista de Hamilton:

- Vire seu bafo de carne para lá.

[Ouvindo: Joss Stone - Torn And Tattered - Mind, Body And Soul]

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