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18/8/05 20:36

De luto

Hoje a Casa Proença desce a bandeira a meio mastro e decreta luto oficial. Quem morreu foi o Jus Sperniandi, blog de Ilton Dellandréa. Demorei um pouco para descobrir - o último post é do dia 15 - porque quando se trabalha tanto tempo em frente a um computador, tem-se muito pouco tempo para usar a máquina para fazer coisas legais, como ler os blogs de amigos.

Não conheço Ilton pessoalmente, assim como nunca botei apertei a mão de Mauro ou Alicinha, mas me permito chamá-lo de amigo. Discordo de muitas de suas opiniões, concordo com outras tantas e gosto de seu texto fluido e agradável de ler. É um "amigo de blog". E dos bons.

É a primeira vez que vejo uma morte anunciada de um blog e fiquei pensando se lhe fui, em vida, um bom leitor. Talvez pudesse ter comentado mais, ter interagido mais. Mas esse é meu jeito. O oposto de Ilton, que não pode ver um espaço para comentários vazio. Fiquemos em silêncio.

[Ouvindo: The Who - The Kids Are Alright - My Generation]

17/8/05 7:50

Excertos da adolescência

A gota de suor escorreu testa abaixo, lavando a fronte e pingando sobre o homenzinho vermelho que fazia as vezes de zagueiro no jogo de pebolim. João sempre fora um poço de suor, inverno ou verão. Mas desta vez, era exagero e a causa estava logo atrás do goleiro vermelho, olhando insistentemente para cada poro suarento do rosto de João. Seu nome era Tatiane e deveria ser louca.

Que outra razão levaria uma mulher estupidamente linda, longos cabelos morenos, pele claríssima e olhos verdes-água a olhar tão ostensivamente para João. Ah, sim, deixemos claro, isso era o que passava naquele momento na cabeça de João. Problemas de baixa auto-estima. Mas é preciso lhe dar alguma razão: um rapazinho sem graça, magro demais, espinhento demais, narigudo demais, olhos fundos parcialmente escondidos por um par de óculos de aro fino. E suarento demais. A ponto de incomodar os colegas.

-- Porra, vê se vai lavar esse rosto cara! -- A interrupção partiu de Max, um gaúcho que já era seu amigo há dois verões, um rapaz bonito mas que, inexplicavelmente -- e quem diz que as coisas precisam ser explicadas? --, não tinha o mesmo jeito com as mulheres que João. Estava aí um conselho que servia e nosso herói seguiu para o banheiro, não sem antes explicar para Tatiane que já voltava.

Bem, ele sequer sabia que ela se chamava Tatiane, Tata na família, Tati entre os amigos. Não tinham trocado uma única palavra, mas até João, mergulhado em suor e se afogando em oceanos de baixa auto-estima, sabia que era com ele que ela queria alguma coisa. Nada mal, ele pensou, enquanto jogava uma água no rosto e esfregava vigorosamente as toalhas de papel pelo pescoço e cabelo.

Saiu do banheiro e voltou para o pebolim. Mas não jogou.

-- Vamos tomar um arzinho? Tá muito quente aqui.

-- Claro, João.

-- Como você sabe meu nome?

-- Seus amigos disseram enquanto você estava no banheiro.

-- Isso é injusto. Eu não sei o seu.

E ela disse que se chamava Tatiane, que era da capital e estava naquela prainha vagabunda, esquecida pelo mundo porque o pai tinha família ali. Que no início tinha achado um saco -- essas foram as palavras dela, "um saco" -- não poder passar o verão aproveitando as praias da capital, movimentadíssimas, cheias de gente bonita, com shows, campeonatos de surfe e tudo o mais. Mas, hoje à noite, ela disse, eu vi que até aqui, nesse balneário, a noite pode ser divertida.

João e Tati -- nos primeiros trinta minutos juntos ele já segurava a mão dela e a chamava pelo apelido -- foram tomar um sorvete e caminharam até às dunas e ficaram olhando o mar e conversando. Falaram sobre todas as coisas bobas que adolescentes suarentos e garotas bonitas da capital falam. Talvez um pouco mais, porque ele havia lido Nietzsche. Não entendera, mas só o fato de ter lido impressionava. Já ela tinha especial interesse no budismo e em religiões orientais. Falaram sobre como alguém se torna o que é e como a compreensão da impermanência ajuda nesse processo. Na época, isso se chamava papo-cabeça.

Mas, a bem da verdade, a cabeça de ambos estava no corpo, nos lábios. As palavras que saíam deles era um detalhe. E logo mais, no exato momento em que uma onda pouco maior do que o usual arrebentou na praia, tomaram coragem e se beijaram. João, sempre muito calculista, avançou até bem perto, perto o suficiente para encostar o nariz em seu rosto. Mas deixou que ela completasse o caminho. E naquela noite eles escolheram as dunas como refúgio, tocaram-se até cansar, beijaram-se até inchar os lábios. Foi ótimo, os dois diriam, muitos anos mais tarde, ao se lembrarem e escreverem sobre a experiência, cada um em seu blog.

João e Tati nunca mais se viram. Nunca mais. Um não sabia onde o outro morava, nunca mais cruzaram um com o outro durante às noites quentes naquela prainha esquecida pelo mundo no Sul da América do Sul. Mas a experiência ficou e João, que releu Ecce Homo, acha que isso ajudou a fazer dele quem ele é.

[Ouvindo: Oasis - Champagne Supernova - (What's The Story) Morning Glory?]

8/8/05 13:48

Água e óleo

Carro na oficina por causa de uma mancada. Garanto que não fui eu, mas colocaram água dentro do reservatório do fluido da direção hidráulica do meu carro. Tive que deixá-lo para fazer uma limpeza no sistema e trocar o prestator, um sensor de pressão que avisa à injeção eletrônica quando acelerar o carro para compensar o uso da bomba da direção. Uma roubada que vai me custar uma graninha.

A teoria da minha sogra de que tudo estraga em três tá valendo. Ontem tive de trocar as fechaduras "tetra" da porta da sala porque fiquei trancado pro lado de fora no sábado. E uns dias antes o no-break da Luciana havia estragado. Que pare por aí.

[Ouvindo: Ira! - Flerte Fatal - Ira! Acústico MTV]

2/8/05 13:55

Esse manja

O amigão Marcelo Santos, jornalista como eu, entrou na blogosfera com um blgo simpático e utilíssimo, o Da Poltrona. Nele, Marcelinho fala de cinema, uma de suas grandes paixões. Ele curte tanto os filmes que vê que chega a ter uma coleção de matérias catalogadas e ordenadas em pastas. Coisa de maluco por papel, mesmo. Toda semana, sai com uma pilha de cadernos de cultura publicados em jornais nacionais embaixo do braço. E lá vai ele, recortar, colar, armazenar nas pastinhas e guardar embaixo da cama. Para desespero de sua esposa Alessandra. Mas isso lhe dá uma base considerável para falar sobre cinema. Sem contar que Marcelinho sempre tem uma dica boa de filme. Já era hora de ele compartilhar suas idéias com mais gente.

[Ouvindo: The White Stripes - Instinct Blues - Get Behind Me Satan]

1/8/05 13:44

Bang, bang

Hoje pela manhã o pessoal aqui do trabalho discutia sobre o plebiscito do desarmamento, o que me fez lembrar de um e-mail que recebi da amigona e leitora fiel Gabriela. Falava sobre o desarmamento da "população ordeira". Fiquei impressionado com o uso da expressão. Eu, que sempre me pensei ordeiro justamente por não ter armas de fogo, nem gosto algum por elas, raciocinei atrás de uma lógica para o uso de tal expressão.

Só consegui achar uma, nos preceitos do conservadorismo que reinou no Brasil durante os anos de governo militar. A idéia de ordem acima de tudo é condizente com essa idéia de que a "população ordeira" precisa estar armada. Isso por que os conservadores, junto com os socialistas, e bem longe dos liberais, pregam que a ordem geral se sobrepõe aos direitos individuais. Assim, é justificável prender ou matar alguém, desde que seja para resguardar a ordem geral.

Já a defesa dos direitos individuais, tão cara ao liberalismo, também poderia servir de bandeira para os contrários ao desarmamento. Bastaria argumentar que é direito de cada um usar armas. Mas, matar alguém certamente surrupiaria esse direito do outro.

E, pensando bem, o que mais se pode fazer com uma arma. Uma vez que um ladrão lhe ameaçe, não há como puxar a arma e dar voz de prisão para o criminoso. A alternativa é sombria: apertar o gatilho e torcer pra acertar em cheio.

Aí entra uma questão com a qual muita gente não conta, que é a possibilidade de viver com o fato de ter matado alguém. Viver depois de ter sido assaltado, sofrido um seqüestro ou até ter sido estuprada (o mais cruel e violento dos crimes, na minha opinião) não é fácil, mas eu vejo muita gente que dá conta. Já com o homicídio, é preciso uma certa cepa, um caráter incomum - não sei se bom ou ruim, não me cabe julgar - que garanta paz de consciência ao assassino. Prevejo belos debates sobre o assunto.

[Ouvindo: The Strokes - Hard to Explain - Is This It]

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O esquema é: textos em branco são ficção, em preto, opinião, e em cinza, tudo o que não for nem um nem outro.

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