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23/2/05 15:38

Pés

Juanita tinha pés redondos. Não como bolas, algo parecidos com elipses. O equilíbrio era tarefa difícil. Quando pequena, nos primeiros passos tardios, Juanita erguia as mãos para não beijar o chão. Não morria de amores pelos tapetes da casa de seus pais. Sobre a superfície felpuda era ainda mais difícil equilibrar o corpo pequeno. Mas cresceu com isso e conviveu com a dificuldade por toda a adolescência, sem poder dançar nos bailinhos.

Tudo o que Juanita queria era um bom par de pés chatos, como os que tinham impedido Tarso, seu irmão, de servir o exército. Tentou os médicos da cidade e da capital. Nada. Um charlatão ainda aproveitou-se do desespero da coitada e lhe deu restolho de esperança ao prescrever tratamento que consistia em usar sapatos de ferro e uma lajota sobre a cabeça. Depois de dois meses de contusões e nenhum resultado, Juanita desistiu.

Já ia sendo deixada para cuidar, sentada, dos filhos do irmão, quando conheceu César. Sete anos mais novo que ela, o jovem não pareceu ligar para as dificuldades de equilíbrio de Juanita. Casaram e tiveram uma filha a quem deram o entranho nome de Pabla. No parto, Juanita olhou primeiro para os pés da criança e sorriu ao ver que havia puxado ao pai. Mas todo o resto era idêntico a Juanita quando criança, diziam os parentes ao visitá-los na maternidade.

Pabla cresceu correndo, dançando, jogando bola, pulando amarelinha. Dançou com o primeiro namorado e quando conheceu o sexo correu na praia fingindo fugir do garoto. Toda essa correria preocupava a mãe, que valorizava demais os pés de Pabla. Não queria que ela corresse, podia machucar os pés. Não gostava que fosse a praia, um siri podia machucar seu pé. E nada acontecia aos pés da garota. Aliás, eles não podiam ser mais perfeitos. Tanto que a garota casou e começou a estudar dança.

No dia de sua formatura, a família veio de longe para vê-la dançar. Pabla já estava no salão quando seus pais chegaram ao local da festa. César desceu do carro e foi ajudar Juanita a desembarcar. Segurou-a pelo braço. Um pé, depois outro. Largou a esposa. Bateu a porta. Um segundo. Um segundo só e Juanita desequilibrou-se. Pabla viu. Correu para acudir a mãe que caía. Mas não chegou a alcançá-la. Tropeçou em um bueiro e torceu o pé direito. Caíram ambas e trocaram um sorriso. Nos olhos da filha, Juanita enxergou compreensão.

[Ouvindo: Rolling Stones - Shattered - Some Girls]

18/2/05 22:38

Sumido

Caramba, há 18 dias que não posto nada por aqui. Tudo bem que tenho trabalhado de monte e gasto meu pouco tempo livre com outras coisas, mas olhando esse blog parado, senti que devia satisfações. Lá vão elas.

A primeira é que passo boa parte do meu tempo cuidando da reforma do barco, que agora engrenou de vez. Encomendei uma carreta que estará pronta no final deste mês. Documentada, graças à preciosa ajuda do amigo Robson. Mais não comento porque alguém do Detran ou da Secretaria de Segurança Pública pode ler isso. A carretinha será completa, com roda de nylon na frente, para auxiliar as manobras, suporte para mastro e guincho manual que facilita na hora de tirar o barco da água.

Até a carreta ficar pronta, o barco já estará montado e pronto para navegar. As velas foram revisadas - me surpreendi positivamente com o preço, a única coisa que achei barata nesse rolo todo -, novos moitões, cabos, cupilhas, pinos, parafusos e passa-cabos foram comprados. Passei a noite de domingo polindo os metais com uma lixa d'água 1500 e aplicando produtos conservantes nos moitões, mordedores e catracas. Tudo ficou digno da beleza que está ficando o casco. Tudo leva a crer que o Gostosa ficará com cara de barco novo.

Só a cara, porque olhando nos documentos, descobri que o bicho é de 1977. Na identificação de fábrica, a precisão é maior: foi fabricado pela Mariner em Porto Alegre, em junho de 1977. Só vim a saber disso essa semana porque não tinha os documentos do barco. Quando comprei o veleiro do meu camarada Serginho, por um preço igualmente camarada, não cheguei a pegar os documentos com ele. Só mais tarde, quando realmente peguei gosto pela coisa e resolvi investir no barco é que fui atrás da papelada. Demorou, mas o Serginho achou o documento original e falta providenciar a transferência.

Aí tem um porém a mais: ele nunca transferiu o barco para o nome dele. Está ainda registrado como propriedade do antigo dono. Estive na Capitania dos Portos e o recibo fornecido pelo senhor de quem Serginho comprou o Gostosa já não vale mais. Vai ficar mais fácil, portanto, procurar o cara e fazer a transferência direto para o meu nome. Ele mora em Balneário Camboriú e pretendo dar uma subida até lá na semana que vem, para resolver essa pendenga.

Essa era uma das justificativas. A outra? Ah, andei com preguiça. Andei, não. Ando com preguiça. Tanto que encerro por aqui.

[Ouvindo: The Cult - Little Face - Love]

1/2/05 13:59

Ícone e reforma

Quem adicionar, a partir de hoje, essa página aos favoritos do Internet Explorer verá um ícone personalizado no menu. Só descobri como fazer isso recentemente e resolvi experimentar por aqui.

Para os que acompanham a novela que se tornou a reforma do veleirinho Gostosa: o fibreiro trouxe o barco para Florianópolis e voltou a trabalhar no bichinho. Hoje à tarde vou lá para levar umas peças e pegar outras para limpar. Parece que agora vai. Prometo fotos para logo mais.

[Ouvindo: Red Hot Chili Peppers - Skinny Sweaty Man - The Uplift Mofo Party Plan]

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A mesma casa, o mesmo morador. Só a pintura e algumas paredes são novas.

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