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29/5/05 19:55

Satisfações

O velho K. acorda suado, trêmulo, sofrendo e aperta o botão da morfina com força. O alívio imediato permite que ele abra os olhos para a praça, para os pombos, para a fonte, para o mundo que ele um dia conheceu tão bem. Agora, é anacrônico, ícone de um passado que não volta mais, de uma época em que ele e seus antecessores ditavam destinos. Estava sozinho, e seu sucessor estaria ainda mais caso as coisas continuassem como estavam. Ele havia feito o possível. Não o suficiente.

Assombrado pelos pensamentos no futuro, K. olhou rápido para o lado, sentindo-se observado. Não havia ninguém no quarto luxuoso, adornado de filetes dourados na parede; na cama com dossel púrpura ele repousava sozinho, como é de bom tom para os velhos. Mas a sensação ainda estava ali. Haveria alguém com ele? Mais uma olhada, custosa, esforçada, para se certificar. Não. Ninguém.

Só depois de ele recostar-se nos grossos travesseiros de pluma ele viu o homem sorridente. Barba e cabelos brancos, feições familiares como as de anúncios de margarina. O que faria ali? Mais um clique na morfina e o velho pôde controlar a dor o suficiente para perguntar, em italiano:

- Quem está aí?

- Eu estou, quem mais? - o espectro respondeu numa voz de baixo, exatamente como ele havia imaginado que seria. Morrera e Deus em pessoa tinha vindo buscá-lo. Por que, então, continuava agonizando, sentindo dores? Por que não ia logo para o reino dos céus?

- És tu, meu Deus? Vieste me buscar, suponho. - K. retrucou, tentando ser formal. Falava com Deus, tinha certeza.

- Não exatamente. Sou tua noção de Deus, não O Deus, com "o" maiúsculo. Mas estás certo de algum modo, vim te buscar. É tua hora e temos algo a acertar.

K. apertou novamente o botão da morfina para clarear seus pensamentos. O que o espectro estava dizendo? Que seu Deus não é único, não é o correto, o criador de todas as coisas? Não era possível.

- Estás me testando, Senhor? Ou és um enviado de Satã para me tentar, para me fazer renunciar à fé verdadeira?

- Nem um nem outro. Por toda tua vida seguiste um caminho que não fazia o menor sentido. Leste livros, mas não os comprendestes. Ouviste palavras, mas não as interpretastes. Lamento.

- Não, recuso crer que errei. Creio em Ti, Senhor! - o velho ergueu a voz e os olhos para o teto do quarto, para o afresco onde se via uma pintura que representava justamente o espectro. Barba, cabelo, feições, tudo. K. falava com nada e com ninguém. Eram ele, o espectro e o silêncio as únicas testemunhas da aguardada revelação.

- Se és quem dizes ser, me cure.

- Pois te livro de teu sofrimento, mas continuarás com a hora de tua morte marcada. Te curar é impossível. O que o corpo sofre não pode ser desfeito sem a mão da ciência. E a ciência que tanto condenaste agora te falseia. Merecidamente, hás de convir.

No mesmo momento em que o espectro terminou de falar, a dor cessou e K. pôde sentar-se na cama sem esforço. Lá fora, os pombos pararam no ar. A água paralisou-se jorrando da fonte mas nunca caindo. Era a prova. Assim como levantou a cabeça para testar suas forças, o velho esmoreceu. Deu-se por vencido.

- Então, morri. E, morto, descubro que Deus nunca existiu. Que Cristo não era o filho de Deus, que Maria não era virgem e imaculada. Podia ter morrido na ignorância, com a dignidade de minha espiritualidade intocada. Mas, afinal quem és?

- Eu sou, e basta. Uma criação tua, uma parte que ignoras em teu cérebro. Uma racionalidade que desconheces. Tuas crenças foram criadas em tua mente, por estímulos externos, pela Bíblia, pela tua criação, pelo meio em que viveste. Gradualmente, a porção de racionalidade em teu cérebro foi sendo posta de lado, ignorada por não mais fazer sentido na tua vida. E assim viveste. Mas não morrerás assim.

- Por que só agora isso me é revelado? Teria sido tão importante saber... - lamentou-se K.

- A morfina e a proximidade da morte lhe deram clareza ao pensamento. Além disso, achei que devia uma satisfação. Depois de tudo, de todo esse tempo. Agora, adeus.

E os olhos de K. se fecharam para sempre às 21h37min do dia 2 de abril de 2005, numa noite soturna em Roma.

[Ouvindo: Legião Urbana - Acrilic on Canvas - Dois]

20/5/05 22:55

Enjaulado

As mulheres são meu objeto de estudo. Passo os dias obervando-as, coletando mentalmente informações preciosas. Como se vestem, gesticulam, as nuances da voz. É um trabalho estafante. A minha volta há dezenas de mulheres e é difícil escolher um espécime interessante para estudar. Poderia usar estatística e trabalhar com amostragem, mas prefiro interagir com mulheres incomuns. Dessas fáceis de um homem se apaixonar. Foi aí que errei pela primeira vez.

Ultimamente, meu interesse tem ficado restrito a uma falsa magra de sorriso franco que conheci faz pouco tempo. Montei o posto de observação a poucos metros dela e uso um processo razoavelmente científico de coleta de dados, que consiste no estímulo e no estudo da reação. Porém, nas primeiras horas da manhã uso o método da observação pura, descrito por Émile Durkheim em Les Règles de la Méthode Sociologique. À tarde, procuro aplicar essa inovação, um misto de questionário com uma exposição comparável apenas aos borrões Rorschach.

Trata-se de estímulo escrito com conotações diversas ao do ambiente e o estudo das reações faciais ocasionadas. Descobri logo nos primeiros dias que havia escolhido o espécime errado. A mulher em estudo deve ser excelente jogadora de pôquer: não muda a expressão quando lê um elogio, uma piada, uma cantada, uma declaração de amor. Nada. Ela recebe todos os estímulos como se não fosse com ela. Mesmo com a certeza de que isso poderia comprometer os estudos, prossegui na observação. Meu segundo erro.

Depois de quase um mês de observações meticulosas, de anotações precisas e cruzamento de dados, obtive um retorno incomum: a mulher estudada me elogiou. Ficou olhando, esperando uma reação minha. Reagi quase instintivamente, corando um pouco e olhando para baixo. Ela pareceu ter tomado nota. Naquele dia, fiquei olhando ela ir embora. Notei quando deixou o carro morrer ao dar a ré, como acelerou apenas para vencer a inércia e deixou o veículo correr morro abaixo. E eu, embasbacado na janela.

Três dias depois, retomei a pesquisa, convencido de que poderia ter ainda algum resultado. Já pela manhã, ela começou a interação. Perguntava-me coisas, o que achava disso, o que achava daquilo. Respondi a tudo, meio desconfiado. Durante a tarde, estava ainda digerindo o questionário a que havia sido submetido quando ela se pôs a olhar, pelo reflexo da janela, fixamente para mim.

Desconfiado, desviei o olhar e assim fiquei, interagindo apenas o mínimo necessário. Todo o meu tempo como observador, meus estudos detalhados e relatórios extensos não haviam me preparado para isso. Não havia bibliografia científica a respeito. Ninguém havia me dito que um simples sorriso, um cruzar de pernas, uma palavra de estímulo, um elogio, desde que vindo da mulher certa, poderiam colocar um homem na jaula. Pois eu estava lá. Enjaulado, e adorando.

[Ouvindo: Pixies - Allison - Bossanova]

13/5/05 22:46

Cabelo

De todo o tempo que passa olhando para ela, o cabelo louro de raízes negras, alisado, com um ou outro fio rebelde, é o que ganha mais atenção. Depois as costas, levemente desalinhadas, o pescoço escondido e os ombros erguidos num vício postural. O rosto aparece de vez em quando e vem acompanhado do sorriso.

Mas é ao cabelo que é preciso, necessário, premente, ater-se. Brilha com a luz que entra pelas janelas e espraia-se em reflexos no vidro a sua frente. Ele enxerga tudo, as nuances, os jeitos, olha o tempo todo para o cabelo. Às vezes, pela manhã, os fios estão presos atrás, por um prendedor, desses comuns e que as mulheres usam em casa. Os fios só ganham vida quando libertos. E aí ele já não presta para mais nada, não come, não bebe, não trabalha.

Vez por outra, ele a toca nos cabelos. Finge uma carícia despreocupada, ou que vai tirar uma pluma, um fio está fora do lugar. Não passa disso. Mesmo assim, ela lhe olha desconfiada. Talvez pudesse passar o limite. Não devia. Mas talvez pudesse. A prudência dizia que não, que mesmo a carícia despreocupada, um pegar na mão, um roçar de perna poderiam incomodar. Não. Melhor ficar com o cabelo.

Até que um dia o toque foi mais longe, até o rosto, passeou pelo lóbulo da orelha esquerda e despertou uma reação. No pescoço, com o cabelo jogado todo para um lado, ele detectou um arrepio. A pele ouriçada, os pelinhos da base da cabeça em prontidão. A vontade era de avançar no pescoço, mas não. Ela não concordava. E deixou isso claro com uma virada na cabeça e o afastar da cadeira. Talvez outro dia, desde que fosse o mesmo cabelo. E as mesmas mãos.

[Ouvindo: Chico Buarque - A Rosa - Chico Buarque/Novo Millennium]

8/5/05 20:17

Falsidade ideológica

Hoje recebi duas mensagens de e-mail com textos atribuídos a Shakespeare e Drummond. Não precisava pensar muito ou conhecer profundamente as obras de ambos para descobrir que os textos não eram deles. Me intriga essa necessidade das pessoas, pela internet, creditarem os textos que escrevem, alguns até bem bons, a autores famosos.

Já li textos que supostamente teriam sido escritos pelo cineasta frustrado Arnaldo Jabor, pelo mestre Gabo ou ainda por Machado de Assis. O campeão, claro, é Luiz Fernando Veríssimo. Desse, já li muita bobagem na internet. Embora o filho de Érico escreva bastante bobagem, quase todas as atribuídas a ele e difundidas pela internet não são sua culpa.

Mas o que me intriga ainda mais é que um e-mail que realmente foi assinado por autor famoso e difundido pela rede nesta semana, eu não recebi. Trata-se do libelo de João Ubaldo Ribeiro contra a cartilha politicamente correta do governo federal. João Ubaldo descascou o verbo na Secretaria Especial de Direitos Humanos, que aparentemente tem tarefas tão importantes quanto as de um grupo de discussão de gênero. E eu não recebi. Uma pena.

Ah, a propósito, não fui eu quem escreveu isso aqui, tá? Foi Dan Brown.

[Ouvindo: AC/DC - Love Hungry Man - Highway To Hell]

4/5/05 20:05

Tac

Leila entrou na oficina preocupada. No seu semblante, ainda afetado pela visita ao dentista, se via que as notícias não eram boas. Zé, o mecânico, lhe olhou com a cara de sempre. Mulheres e mecânica não combinam muito. A mistura só servia para calendários.

- Seu Zé, meu carro faz "tac"! - Leila falou, num tom pouco mais alto do que o normal da sua voz.

Zé era o mecânico de confiança de Leila. Antes de comprar este carro, ela havia levado quase uma dezena de outros para ele dar uma olhada. O Ka vermelho, ano 98, tinha ganho o selo de qualidade do seu Zé. Agora ela estava ali, parada ao lado do Ka, esbaforida e dizendo coisas aparentemente sem sentido.

- "Tac"? - perguntou o mecânico

- É, "tac"! - reafirmou Leila, como se a onomatopéia fosse auto-explicativa.

- Deve ser algo na roda

- Não é não, se fosse, ia fazer "tac-tac-tac", bem rápido! É outra coisa.

Seu Zé, pacientemente, como sempre, suspendeu o carro e virou roda por roda com a mão. Nada, nem tac, nem tic, nem ploc. Nada.

- Quando eu engato a primeira, não faz "tac". Na segunda, faz "tac", aí, na terceira, faz uns dois ou três. "Tac, tac, tac". Na quarta, ele vai fazendo "tac", cada vez mais rápido.

- Tipo "tac-tac-tac", bem rapidinho? - inquiriu, tentando falar na mesma língua, mesmo que isso suscitasse um sorrisinho gozador em seu assistente.

- Não, não! É "tac, tac, tac"! - Leila descreveu, fazendo os ruídos pausadamente com a boca ainda adormecida da anestesia do dentista.

Seu Zé estava se exasperando com a imprecisão da mulher de 27 anos, dois de volante. Como mecânico, o que ele mais gostava era quando alguém entrava na sua oficina dizendo que precisava trocar o trambulador, ou que a coifa da homocinética estava rachada. Ele olhava, confirmava o defeito e orçava o serviço bem mais rápido. Mas, com mulheres, era sempre assim. Mulheres e engomadinhos. Os engomadinhos vinham de carro importado, o motor coberto por uma caixa preta de plástico e diziam que o desempenho estava abaixo do esperado, que o câmbio automático estava trocando marchas com o giro muito alto. Eram piores que as mulheres. Por serem homens. E só.

Mulheres, pelo menos, eram bonitas. Era o caso de Leila, que ficava bem de branco, preto, vermelho. O tom de seu cabelo, que seu Zé nunca conseguiu descobrir se era natural ou pintado, combinava com o rosto claro e a boca rosada. Os olhos castanhos brilhavam na face. E hoje brilhavam mais, por conta do "tac" em seu carro.

- Por que não dá uma volta com ele? - Ela sugeriu.

Saíram os dois, ele dirigindo, ela do lado. Seu Zé engatou a primeira, nada de tac; a segunda, nada de tac; a terceira, nada de tac. Só quando saiu da rua de lajotas e entrou no asfalto é que ouviu o ruído. Estava lá, bem claro: "Tac".

- Ouviu, ouviu? - perguntou Leila, como se o barulho fosse seu atestado de sanidade, a redenção junto ao mecânico incrédulo.

- Ouvi.

Seu Zé não precisou pensar duas vezes. Olhou para o painel, ouviu mais um tac e fez a volta com o carro.

- O que que é? Descobriu?

- Seu marcador não tá virando, dona Leila. O "tac" é do numerozinho que tá travado - disse, apontando para o numeral que marca as frações de quilômetro, em vermelho. Apertou o botão para zerar o odômetro parcial e o tac se foi para sempre.

O vermelho do número foi para as faces de Leila.

- Ai, seu Zé, por favor, não comente com ninguém.

- Pode deixar dona Leila.

Assim que encostou o carro na frente da oficina, seu Zé desceu e deu adeus a mulher. Ela embarcou, ainda vermelha, e reiterou o pedido de sigilo, jogando um pouco de charme para convencer o mecânico a não contar o episódio. Assim que Leila virou a esquina, Zé entrou e chamou o assistente:

- Pedro, sabe o que era o defeito no carro da moça? - disse, já rindo.

Ela era bonita, mas a história era melhor.

[Ouvindo: The Beatles - Because - Abbey Road]

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O esquema é: textos em branco são ficção, em preto, opinião, e em cinza, tudo o que não for nem um nem outro.

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