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27/3/05 23:04

Historinha pascal

Essa vai em cinza porque é contada como verdade. Numa encenação da paixão de Cristo, muito tempo atrás, em Sombrio, Sul de Santa Catarina, o escolhido para o papel de Jesus foi um conhecido beberrão da cidade. Daquelas figuras boa-praça, amigo de todos. Pois ele virou Jesus na encenação, cuja crucificação estava programada para acontecer na praça principal, em frente à igreja. Seria preciso agüentar um bocado de tempo pendurado na cruz. Para a espera ser mais agradável, o tal beberrão armou com os colegas que fariam papel de centuriões para que colocassem cachaça em vez de água nas vasilhas que serviriam para molhar as lanças. Nos filmes mostrando a paixão de Cristo, os guardas romanos molhavam trapos em fel e encostavam na boca de Jesus, para aumentar sua agonia. O fel, na versão sombriense, era uma boa purinha. A encenação transcorreu normalmente pelas ruas da cidade e a crucificação e sofrimento de Cristo estavam emocionando a população, graças ao empenho dos moradores que atuavam. Até que Cristo, já crucificado, agonizando na cruz, berra para um dos centuriões: "Mais fel, por favor, mais fel". Parece que nunca houve outra encenação da paixão em Sombrio.

[Ouvindo: Foo Fighters - Aurora - There is Nothing Left to Lose]

23/3/05 0:57

O livro que eu quero ler

Lendo o Estadão de domingo (ao colocar umas análises em dia para poder passear no feriadão), vejo que Lula sofre para demitir seus ministros incompetentes. Não são poucos. Numa das matérias, o repórter descreve que Lula se sentiu muito mal ao dispensar Benedita da Silva no ano anterior. Nilcéia Freire chorou na frente do presidente ao saber que perderia o cargo de Secretária Nacional de Políticas para Mulheres.

Demitir alguém não é uma experiência legal. Só passei por isso uma vez e a demitida encarou tudo muito bem, mas mesmo assim sofri um pouco. Isso não vem ao caso. O que me chamou a atenção é o lado humano de Lula e dos corredores do Planalto. Taí algo interessante de se ler. Ao final do mandato (do segundo, que é cada vez mais provável), alguém deveria se habilitar a contar essas histórias. Eu leria isso.

[Ouvindo: Pato Fu - G.R.E.S. - Rotomusic de Liquidificapum]

16/3/05 11:49

Gostosa ao mar

Ontem, finalmente, o Gostosa foi pro mar. Pulei às seis e meia, seco para velejar. Depois de consulta a sites de meteorologia, vi que o vento estaria em torno de sete nós, de Noroeste, o que permitiria uma boa velejada.

Foto: Jefe Cioatto
Preparando as escotas da buja, ainda na marina.

Já havia acertado com o grande Jefe Cioatto para, caso o tempo estivesse bom, velejarmos. Foi o tempo de me arrumar, juntar a tralha (leme, cana, extensão, remos, bóia, coletes, cabos, ferragem, âncora, velas e talas, o suficiente para encher o porta-malas do Renault) e fazer uns sanduíches para levar. Uma passada no super para comprar gelo, uma parada no Armazém Naval para comprar duas alças e uns metros de corrente galvanizada a fogo e estávamos rumo a Santo Antônio de Lisboa, onde fica a marina. Começamos a montar o barco às 10h30min e ficamos na função até 12h30min.

Comemos os sandubas e zarpamos. Com o vento vindo de Noroeste, escolhemos como destino para o teste de mar do Gostosa a praia da Daniela, no Norte da Ilha de Santa Catarina. Chegamos lá em três horas, depois de várias cambadas. Escalas não são meu forte, mas a carta náutica 1902, do Porto de Florianópolis, me diz que a distância é de aproximadamente 10 quilômetros. Ou seja, fizemos uma média de 3,3 km/h, pouco menos de dois nós. É pouco, se analisado dessa maneira. Mas como estávamos navegando contra o sentido do vento, tivemos de trocar de bordo diversas vezes. Numa das vezes, avançamos bastante das ilhas Ratones Grande e Pequeno.

Foto: Giancarlo Proença
Jefe, numa parada para fotos. Ao fundo, o forte de Ratones Grande.

Sem um método mais confiável de medir a velocidade (podia largar cabo, mas isso exigiria cálculos e cronometragens complicadas), arrisco dizer que fizemos pelo menos uns cinco a sete nós, uma velocidade boa para o vento que havia. Na volta, levamos uma hora e quinze minutos. Cerca de oito quilômetros por hora, ou 4,5 nós. Como também cambamos, embora bem menos do que na ida, acho que minha estimativa de velocidade está bem realista.

Foto: Jefe Cioatto
De timoneiro, orçando para o Jefe não correr o risco de cair do topo da cabine.

O Gostosa, portanto, passou muito bem no seu teste de mar depois da reforma. Para não dizer que nada aconteceu, quando paramos para um mergulho na Daniela, notei que as porcas que prendem a porta à madre do leme haviam se soltado. Com a ajuda do Jefe dentro do barco passando peças e ferramentas, substituí o parafuso por um de menor bitola que tinha à bordo. Cansei as pernas de tanto boiar para fazer o conserto, mas o parafuso suportou o esforço e nos levou de volta em segurança.

[Ouvindo: The Beatles - I Wanto To Tell You - Revolver]

10/3/05 19:24

Norte

Baixou o rosto para o asfalto, olhou pedrinhas no acostamento. Não sabia se seguia para esquerda ou direita. Ler as placas dos carros, para adivinhar de onde vinham, para onde iam, era difícil com os poucos meses de Mobral que fizera aos cinqüenta anos. A primeira vez que perdia a direção depois de dormir sob uma ponte qualquer. Costumava marcar o sentido com um caco de tijolo, uma seta que dizia para onde ia. Sempre havia uma seta. Mas a chuva lavara a marca como havia lavado seus pés por toda a noite, encolhido sob o vão, escutando os ruídos da rovodia acima. Onde era Norte, onde era Sul? Tudo era tão estranho e tão familiar.

Norte, Sul, um lado qualquer. Juntou a trouxa e começou a peregrinação. Foram sete horas de caminhada até encontrar dois carros parados, duas famílias em viagem. Amistosas. Não, São Paulo ficava para o outro lado. O senhor está voltando para Curitiba. Outras sete horas e estava no mesmo lugar da manhã. Dessa vez, nada de marcações temporárias. Fez uma seta com pedras indicando o caminho. Cansado, deitou a cabeça na trouxa e sonhou que chegava a tempo para o nascimento da décima neta. E que não havia mais estrada, nem chuva nem nada. Para ele, já não havia.

[Ouvindo: Quincy Jones - Ironside (Bonus track) - Kill Bill Vol. 1 Original Soundtrack]

8/3/05 12:03

Comeu as irmãs

Diálogo por telefone entre minha tia Laura seu marido, o sempre folclórico Tio Valda:

-- Tá tudo bem por aí, Valdair

-- Tudo tranquilo, nêga Laura. Ah, comi uma das irmãs.

-- Meu Deus! Qual, a Edite ou a Judite?

-- Não sei. Comi e não perguntei o nome.

Uma explicação se faz necessária, para não tomarem minha família por antro de incestuosos. Edite e Judite são as galinhas de estimação de tia Laura. E, a despeito do que Tio Valda disse, para entisicar com a esposa, não comeu uma delas. Abateu uma prima, bem mais insignificante, que sequer tinha ganho um nome.

[Ouvindo: Van Halen - The Dream Is Over - For Unlawful Carnal Knowledge]

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A mesma casa, o mesmo morador. Só a pintura e algumas paredes são novas.

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